Você quer que a androginia permaneça somente dentro de você?

Este texto é um questionamento de “O Início” (categoria Começando). Se não o fez, leia-o para entender o contexto deste post.

A primeira pergunta deve ser essa, eu imagino. Porque o questionamento real deve partir de dentro. Antes de tudo, acho que a gente não muda tudo começando por fora. Senão, o sofrimento pode ser muito grande. Principalmente quando vamos enfrentar o que somos, toda mudança, creio, deve partir de dentro de nós.

Se o lado externo, plástico, estético é para você muito, mas muito mais importante que isso, provavelmente você não está lendo este texto. 🙂

Você acha que deve envolver outras pessoas nisso? Para muitos, acho que começa como um grande segredo que não se sabe como as outras pessoas vão reagir se souberem que ele existe. Parece que estamos com um enorme dragão dentro de nós e que temos de segurar para que ninguém perceba. E aí a gente tem de decidir se vai deixar ele gritar ou não.

Um breve PS: é claro, esse questionamento também serve para as pessoas trans, mas concentro os esforços para que nos identifiquemos mais. Em linhas gerais, pensamos coisas parecidas porque tudo requer grandes mudanças, grandes reflexões. E outro PS: existem pessoas trans andróginas.

Um monte, mas um monte mesmo, de coisas vêm à cabeça. Se a família vai aprovar, se um relacionamento vai abaixo, se os amigos vão continuar confiando. Aqui não é um lugar onde vamos reprovar ou aprovar alguma coisa. Estamos aqui para refletir, então cabe lembrar todas as possibilidades. Quando um dragão resolve falar dentro de nós, é bom pensarmos um pouco antes de abrirmos a boca porque o dragão você não controla.

Costumo dizer que os amigos continuarão amigos, relacionamentos podem (re)começar, mas família é sempre um calo para muita gente – a não ser que não se haja muito vínculo, só que somos um povo calorento e os vínculos familiares costumam ser fortes. Então acredito que esse pensamento seja mais ou menos o mesmo.

Já que de alguma forma estamos no mundo para nos descobrirmos, pode ser que algumas dessas relações acabem mesmo, caso decidamos soltar o dragão. Aí cabe medir as consequências. Se você realmente deseja, esteja com a plena convicção (onde “plena”, claro, varia de pessoa para pessoa). Se você quiser simplesmente medir o terreno, acho que você deve escolher alguém que não vai te machucar.

Acho perfeitamente normal passarem anos até tomarmos coragem, porque é uma coisa que não se encaixa em molde algum. Perguntam: “mas você quer virar (insira homem / mulher aqui)?” ou “então você é (gay / lésbica)?”

Outro breve PS: a disforia de gênero nada tem a ver com a sexualidade. Você pode ser um homem andrógino e gostar de mulheres. E uma mulher andrógina e gostar de homens. É normal.

Depois algumas pessoas até perceberam que era isso mesmo, sempre me viram assim mas não sabiam do que se tratava. E muita gente acaba nascendo assim, seja lá qual for o motivo. O motivo eu acho que não nos cabe explicar porque é pessoalíssimo. Só nos cabe rodear os meios. Daí, cada um, cada um. Devemos e podemos, sim, é contar nossas experiências e opiniões.

Você tem outros questionamentos? Comente!

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O início

Para quem está no… início, como é que foi perguntar como a vida é? E como ela foi, como ela é e como ela deve ser? Não se trata somente de um planejamento no calendário, mas de uma meta com determinados valores a ser alcançada. Se num deles percebeu ser tema central o que é e o que significa gênero para você, pode ser uma razão para você ter chegado aqui.

Um dos símbolos utilizados na androginia é este. Prefiro porque não tem ângulo e ambos diferenciais de cada “identidade de gênero” estão no mesmo lugar. Para que segregar?

Da mesma forma, é o porquê de eu estar aqui. De perguntar quais são os medos, os desafios, o que deve ser mudado, como deve ser mudado. O que é mesmo que eu quero? Só viver? Ou assim não dá? Eu acho que assim não dá. Ou não dava, porque mudei – e por isso resolvi escrever.

Você pode ter começado desde criança. Perguntou-se por que gostava de brincar com brinquedos diferentes ou os “de ambos os sexos”? Tentou vestir outras roupas? Achou outras interessantes ou não descartaria essa hipótese?

Ou pode ter descoberto isso mais para frente. Não se adaptou ao círculo “normal” de amigos? Teve dificuldades para ter os mesmos tipos de amigos que seus “pares”? Ou seus pares eram do outro gênero, quem sabe? Namorou com dificuldade, não viu interesse num relacionamento onde os papéis são bem definidos? Cansou-se de ser homem, mulher na relação? A imagem no espelho não é aquilo que você pensa ver por dentro?

É claro que só um desses questionamentos não vale para “diagnosticar” se você tem alguma disforia de gênero. Nem todos esses, porque somos mais completos e complexos que essas frases. Aliás, formalmente, somente um profissional pode fazê-lo. Se você estiver atrás de um diagnóstico formal, já adianto que não será aqui. Discutimos aqui em grande parte o do nosso sentimento.

Se você já tem segurança sobre o que quer, porque é o que deveria ter sido, pode ser que esteja no início. E começar, nesse caso, é sempre difícil porque é recomeçar, a qualquer idade. De outro ponto que não foi o que nos ensinaram, o que nos repassaram (porque em geral os pais querem a melhor sobrevivência para os filhos). É outro ponto diferente em que vamos descobrir o que somos.

Parto do princípio em que você tenha certeza de que gosta da androginia em si. De que gosta de ambos papéis de homem e mulher na sociedade, na sua casa ou dentro da cabeça. Ou de que gosta de algo no meio do caminho, chamado de floresta de unicórnio no Susan’s Place.

Aí, você tem vários caminhos pelos quais pode seguir. Depende de várias perguntas:

  1. Você quer que a androginia permaneça somente dentro de você?
  2. Quer apresentar-se como andrógino para a sociedade?
  3. Se quer apresentar-se como andrógino, quer/precisa mudar o seu corpo para isso?
  4. Quer enfrentar a sociedade, dar explicações para um monte de gente?

Uma coisa: pode ser que você nunca pense em mudar “por fora”. E, claro, este desejo é puramente seu. Aliás, todo desejo, seja por mudança ou continuidade, deve ser inteiramente seu.

Dependendo das suas respostas, um monte de outras perguntas pode aparecer. Assim, preifro abrir este questionamento dentro de vários tópicos. Podemos colaborar mais se fracionarmos nossos sentimentos e tratá-los como “problemas de matemática”. Não que sejam meros problemas, porque tratamos do que nos é mais caro. Por isso, vamos dar a devida atenção para cada dessas perguntas na categoria Questionamentos.

A apresentação

Oi. Sempre é difícil escrever a primeira palavra.

Falo sobre um tema que muita gente conhece – até na literatura moderna (jornais, revistas, principalmente as editorias de comportamento) – mas acho que não há um lugar em que esse conhecimento seja compilado, discutido e contestado. Então não vou, e sim vamos, abordar.

Pelo que notei, algumas pessoas usam os termos de uma forma mais estrita. Para facilitar, não vamos complicar? Androginia, como um todo, refere-se a um estado ou características de gênero indeterminado. Como citado no Susan’s Place aqui.

Beijos!